Domingo, 08 de Fevereiro de 2009

Em Novembro de 2008 foi publicado, pela Caminho, o último livro de Gonçalo M. Tavares – O Senhor Breton e a entrevista.

Na sua sala, e recorrendo a um gravador, o senhor Breton dirige a si próprio dez questões, longas e complexas, que ficam sem resposta, e cujo tema poderá ser a poesia – e a forma que a poesia encontra para exprimir a realidade, bem como os limites da linguagem para exprimir essa realidade... afinal «São as perguntas que complicam a realidade. Sem perguntas a realidade seria simples – pensava o senhor Breton. / Mas a realidade não bastava, faltava a outra metade: a reflexão.» [p. 21]

Nos intervalos da entrevista, vemo-lo cruzar-se (a partir da janela de sua casa ou de uma volta pelo bairro) com os seus vizinhos – personagens de outros livros do autor – como o senhor Walser, o senhor Juarroz ou o senhor Kraus. Com efeito, este livro é o oitavo da série de livros “O Bairro”; precedem-no os livros dedicados aos senhores Valéry, Henri, Brecht, Juarroz, Kraus, Calvino e Walser. As personagens destes livros de Gonçalo M. Tavares têm nomes de escritores (Paul Valéry, Roberto Juarroz, André Breton...) e relacionam-se, de alguma forma, nas suas reflexões, com os "programas de escrita" dos  escritores a que "devem" o nome.

Depois da décima pergunta, o senhor Breton desliga o gravador, regressa à janela e apetece-nos perguntar: quando um homem fala sozinho, consigo próprio, está mais sozinho ou mais acompanhado? E, quando se entrevista a si próprio, fica a saber mais sobre o tema da entrevista ou sobre si próprio?

Poético (embora no estilo geométrico e desprovido de lirismos fáceis do autor), denso e reflexivo, O senhor Breton e a entrevista é, na minha opinião, um livro absolutamente imperdível.

 

«4ª pergunta

Tenho a convicção de que um escritor acredita mais na palavra deus do que em Deus propriamente dito. E este modo de colocar a linguagem no quarto principal do palácio não é de forma alguma exclusivo dos poetas, pois também os que trabalham com leis confiam mais nas palavras do que na vida em geral. Ou seja: confiam menos nas coisas que vão acontecendo antes ou durante a existência do verbo do que no verbo propriamente dito. Para descrever o aparecimento da Surpresa no mundo não há decreto-lei, mas haverá certamente um verso. Para a descrição da Repetição não existirá um verso, mas um decreto-lei que a entende, explica e prevê. A vida inteira encontra-se, assim, coberta por palavras. Apenas com vinte e seis letras se dá nome a todas as coisas do mundo e se explicam os inteiros movimentos de todas as coisas do mundo. O que se conseguiria, então, se o alfabeto tivesse vinte e sete letras? Há quem considere, aliás, que o brutal desconhecimento de Deus se deve precisamente à ausência desta última letra do alfabeto. E a qualquer Língua falta uma última letra. Terminámos cedo demais e, assim, ficámos com os Mistérios no mundo. Mas isto é outro assunto, senhor Breton.
O que lhe queria mesmo perguntar, senhor Breton, surge, afinal, de uma outra preocupação, e é esta: será que só a realidade onde a expectativa existe é que se pode transformar em verso? Isto é: poderá a poesia ser entendida como os momentos (plural) que antecedem o momento (singular) em que uma cadeira, por exemplo, se parte? Ou, dito de outra forma assim definitiva: parece-me que poesia é, nas palavras, o momento em que a linguagem está prestes a partir-se em dois. E porquê? Porque aí foi colocado um peso excessivo: os versos pousam palavras sobre a linguagem, palavras que, lado a lado, pesam mais do que o suportável. E a frase pode nunca cair, mas até ao fim dos dias promete cair, ameaça cair. E cairá.
Ou não? O que lhe parece, senhor Breton?» [pp. 23-24 ]

 

Aqui, mais informações sobre o autor.

 

Margarete L. Rodrigues

(professora de Língua Portuguesa e Coord. da BE/CRE da E.B. 2,3 de Penedono)

 

 

* Este é o primeiro de uma série – desejavelmente longa! – de textos que todos os leitores deste blogue estão convidados a escrever sobre livros que tenham lido. Não pretende ser um espaço de hermenêutica ou crítica literária, mas um espaço de impressões descontraídas sobre os livros que nos vão... impressionando, precisamente! Ficamos à espera dos vossos contributos!



publicado por Bibliotecas de Penedono às 22:15
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