Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

O departamento de Línguas organizou um concurso de textos de Natal. O texto vencedor do 9º ano é o que a seguir se apresenta. Leiam... apreciem... reflictam... vale muito a pena!

 

Edward Munch, O Grito (1893).

 

 

1 de Dezembro de 2009

Poderia ser um dia em grande - feriado, sem aulas, sozinho em casa, sem nada para fazer, à espera que o espírito natalício entrasse na minha alma, nos meus sonhos, no espírito da casa e da família. Naquele dia tudo começou normalmente: os meus pais e irmãos foram para fora fazer uma visita e eu fiquei na cama, encostado à almofada... mas por muito pouco... O telemóvel tocou debaixo da almofada, atendi e era um convite para irmos dar uma volta num carro sem matrícula. Clevelland era assim.

10h da manhã entrámos num café e muitas coisas se passaram até me chamarem “cobarde”. Ninguém me chamava cobarde, portanto aceitei a proposta: 50 euros eram a nota para matar o velhote que todos os dias se sentava no banco da rotunda, rodeada de polícias a fazer os seus turnos ao banco ao lado, recém-assaltado, era o meu objectivo. Uma arma em que eu tocava com o dedo no gatilho e pouco depois eu teria na mão...

 
20 de Dezembro, a caminho da prisão de Clevelland

Por ser a mais conhecida, pensei que seria a mais moderna, mas enganei-me. Apercebi-me de que a minha vida seria um pesadelo. Ainda dizia o juiz que sete anos era uma pena leve...!

 
22 de Dezembro, na prisão de Clevelland

Sei que faltavam três dias para o Natal e eu tinha conhecido só os estabelecimentos daquela que seria a minha vida. Entrei para um grupo lá da prisão. Tinha que conhecer alguém que me protegesse porque, se não, ia ter uma pena de morte comunicada pelo “Xeque Mate”, que era aquele a quem chamavam o rei dos reis.

 

Na noite de 24 para 25 de Dezembro tive um sonho, todos os meus Natais desde a minha infância, todas as publicidades, caridades, alegrias, chocolates, o peru assado, e agora... um natal preto onde o Pai Natal se mascara de “Xeque Mate” e, em vez de dar presentes, abusa sexualmente dos meus companheiros de cela, aqueles de que ele não gosta, e ninguém quer saber, porque, afinal de contas, todos nós já matámos alguém e esse alguém que eu matei não foi só o inocente do velhote da rotunda, matei a minha alegria, o meu aniversário e o Natal que chegou em poucas horas.

Como será que um preso, que, por ter uns pais que nunca lhe deram atenção nem a devida educação, matou um inocente e está 14 anos numa prisão onde as condições abaixo de cão também matam, passa o Natal? Um pobre, na rua, sem abrigo, que dorme numa cama feita com cartões e cobertores, uma pessoa que nunca viu um presépio, uma luz num pinheiro, como será o Natal dele? Será que sofre? Será que não liga ao Natal?

 

Eu agora tenho 22 anos e saí da prisão há um ano. Foi preciso ser preso para perceber duas coisas na vida: que “cobarde” é apenas uma palavra e que o Natal é o momento mais feliz que qualquer ano pode ter.

 

Diogo Ramos, 9ºA

 

 

 

 

 



publicado por Bibliotecas de Penedono às 14:17
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